BR 319: entidades e moradores divulgam carta solicitando a permanência de Dionéia Ferreira

Dioneferreira

A exoneração da gerente da Unidade de Conservação Igapó-Açu , Francisca Dionéia Ferreira, pelo secretário de Meio Ambiente e presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), Marcelo Dutra, sem qualquer justificativa vem sendo questionada por moradores das comunidades próxima a UC e pessoas ligadas a área ambiental.
Na quinta-feira (15), membros de sindicatos, associações, cooperativas, Organizações não governamentais (ONGs) e moradores locais se reuniram na localidade do Igapó-Açu, localizado no trecho do meio da BR-319 (Manaus-Porto Velho) estiveram reunidos para demostrar apoio a funcionária pública.
Segundo lideranças locais, Dioneia Ferreira vem fazendo um trabalho extraordinário durantes anos. Entre as conquistas da sua gestão, eles citam o reconhecimento internacional e credibilidade junto aos órgãos ambientais.
Durante a manifestação de apoio, foi divulgado uma carta de apoio a servidora estadual, assinada por 16 entidades e profissionais de diversas áreas.
Veja a íntegra da carta
Carta de apoio a servidora Dionéia Ferreira em defesa das populações dos territórios da BR 319
Na última quarta-feira (14 de março) a servidora e Gerente de Unidade Conservação, Francisca Dionéia Ferreira, que ocupava tal função desde 2010, foi arbitrariamente exonerada pelo secretário de Estado do Meio Ambiente (Sema) e presidente do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), Marcelo Dutra, sem que qualquer justificativa fosse apresentada ao conjunto de coletivos populares que compõe a RETA (Rede Transdisciplinar da Amazônia) em defesa das populações ao longo da BR 319, rodovia federal que constitui importante corredor de integração entre os estados de Rondônia (Porto Velho) e Amazonas (Manaus), junto ao qual Dionéia tem desenvolvido um trabalho há mais de nove anos.
A companheira Dionéia é uma importante articuladora do diálogo com as lideranças locais para o Fórum Permanente de Discussão do Processo de Governança da BR 319 em parceria com o Ministério Público Federal, que reconhece seu papel fundamental na consolidação da rede que vem sendo tecida desde 2009, articulando projetos que pensam processos autônomos para as comunidades no entorno da BR 319.
Dionéia tem como característica a rara habilidade de articular as diferentes prioridades e interesses de grupos diversos que se apresentam para gestão ambiental da sua região de atuação, com sensibilidade e escuta para as necessidades urgentes de contextos sociais distintos, que envolvem questões ligadas a território e territorialidade e interesses econômicos diversos. Essa capacidade de escuta e articulação lhe permitiu mobilizar e atuar junto a diferentes parceiros, desde as prefeituras, universidades, entidades do governo federal e organizações sociais de base e não governamentais, de modo a preservar a biodiversidade natural e desenvolver a autonomia das comunidades que convivem no contexto complexo da BR 319.
Desde sua chegada ao território da BR 319, em 2010, como Gerente da Reserva Desenvolvimento Sustentável Igapó Açu, Dionéia tem trabalhado incansavelmente junto às populações locais, de modo a promover o reconhecimento de suas capacidades, estimular a organização social e criar novas alternativas de geração de renda dos povos e populações da Amazônia. Entendendo que nenhuma comunidade existe isolada do contexto ao redor, em 2011 Dioneia aumentou sua área de atuação, começando um trabalho de fortalecimento institucional comunitário com as comunidades no contexto da BR 319 em parceria com o Sindicato das Trabalhadoras e Trabalhadores Rurais STTR/Careiro, além de articular a formação de uma turma de Agentes Ambientais Voluntários. A partir de 2012, esse trabalho de apoio comunitário foi ganhando um alcance ainda maior, à medida em que a servidora passou a auxiliar as associações na captação de recursos financeiros e humanos para consolidação dos instrumentos de planejamento da Unidade de Conservação, como Plano de Gestão e criação do Conselho Gestor da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Igapó Açu. O aumento do alcance do projeto tornou possível extrapolar as margens do rio também no que diz respeito à sua complexidade humana, mobilizando e discutindo questões de gênero e envolvendo diferentes gerações na luta pela existência e resistência das comunidades do entorno da BR 319.
Seu esforço pessoal para a defesa das unidades de conservação e das populações tradicionais não deixou de ser reconhecido, em diversas ocasiões, pelos órgãos federais junto aos quais atuou em parceria, como o Ministério do Meio Ambiente por ocasião dos 15 anos do Programa ARPA (Áreas Protegidas da Amazônia), tendo sido convidada, dentre todos os gestores da Amazônia, a falar na solenidade realizada no Rio de Janeiro, representando os projetos apoiados pelo ARPA.
É bastante lamentável que o reconhecimento obtido por Dionéia fora das instâncias do governo estadual não tenha tido sua contrapartida na avaliação da própria Secretaria de Estado do Meio Ambiente: ao invés do reconhecimento de sua trajetória singular, a servidora foi surpreendida pela notícia da sua exoneração sumária. Essa medida claramente desproporcional se torna especialmente grave se levarmos em conta que tal exoneração pode colocar em risco a execução de recursos de uma série de projetos apoiados (inclusive internacionalmente), comprometendo a continuidade de muitas ações de proteção e tornando ainda mais vulnerável uma região que corre grande risco ambiental por desmatamento, grilagem de terra e desaparecimento da sociobiodiversidade.
A exoneração de Dionéia nos parece um sintoma agudo do desmantelamento de políticas públicas ambientais construídas com a participação popular, que vem se tornando assustadoramente frequente com a crise política que acomete o Amazonas. Não aceitamos esse ato arbitrário que nos parece uma investida de abuso de poder contra uma companheira e interlocutora exemplar que, de maneira constante e aguerrida, vem dedicando sua vida à construção de meios de defesa do meio ambiente e conhece como ninguém as necessidades das comunidades com que trabalha há quase dez anos. É com um sentimento de profunda consternação que exortamos o governo do estado a rever sua decisão.

ASSOCIAÇÃO DOS COMUNITÁRIOS DA RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO IGAPÓ AÇU
TUPIGÁ – COLETIVO DE JOVENS DA BR 319
PROMOTORAS LEGAIS POPULARES DO CAREIRO PLPS
ASSOCIAÇÃO DO SANTO ANTÔNIO DO MAMURÍ
TEÇUME
REDE DE MULHERES DA BR 319
RETA – REDE TRANSDICIPLINAR DA AMAZÔNIA
INTERVALO ESCOLA
CASA DO RIO
REDE DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DE RONDÔNIA
INSTITUTO INDIA AMAZÔNIA
MOVIMENTO FORÇA ROSA
Leila Mattos
SINDFURPC
Coletivo AQUI QUE A GENTE BRINCA!
COOPAC
Prof. Luiz Antônio Nascimento de Souza
UFAM
Prof. Patrícia Reis, UEA Tabatinga
Associação CASA TOMADA
Mariana Macedo Leitão
Flávia Dinah Rodrigues de Souza (SEMA/ACRE)

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