Registrado no AM o segundo caso de sobrevivência por raiva humana no Brasil

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Um garoto de 14 anos, do município amazonense de Barcelos, que contraiu raiva humana, passou a ser considerado o segundo sobrevivente da doença no Brasil. A erradicação do vírus foi confirmada, nesta terça-feira (09) pela Secretaria de Estado de Saúde (Susam).
O adolescente, que foi internado no dia 2 de dezembro de 2017, na Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD), unidade da rede estadual de saúde, foi submetido ao Protocolo de Milwaukee, um tratamento responsável por outros casos de cura da doença registrados no mundo. O procedimento é um tratamento experimental para raiva em seres humanos e teve uso autorizado pelo Ministério da Saúde.
Para o secretário estadual de Saúde, Francisco Deodato, esta é mais uma etapa vencida no processo, tendo em vista que o caminho para a recuperação total do paciente é bastante longo. Deodato ressaltou a importância do trabalho integrado das instituições envolvidas.
“Em nome do Governo do Amazonas, agradecemos a participação efetiva e integrada de instituições das diferentes esferas de governo, como as secretarias municipais de Saúde de Barcelos e Novo Airão, do Ministério da Saúde, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), do Pronto-Socorro da Criança Zona Leste, da FMT-HVD, dos laboratórios de referências, como Instituto Butantã e Evandro Chagas, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), que coordenou todo o processo de investigação, prevenção e controle da situação local, em curto espaço de tempo, em área de difícil acesso e condições precárias de trabalho, no intuito de preservar vidas, proporcionando o retorno à normalidade na região onde três casos de raiva humana foram registrados”.
Empenho das autoridades de saúde
O diretor-presidente da FMT-HVD, Marcus Guerra, também ressaltou o empenho das autoridades de saúde do Estado e do Ministério da Saúde, que não mediram esforços para apoiar o tratamento do menino, bem como a dedicação da equipe médica. “Esse apoio tem ajudado no astral da equipe”, disse.
O diretor de Assistência Médica da FMT-HVD, infectologista Antônio Magela, membro da equipe médica que acompanhou o tratamento do paciente, considera que um dos principais fatores que contribuiu para a cura foi o diagnóstico precoce da doença e a internação imediata. Magela participou da coletiva, ao lado da médica de Terapia Intensiva Pediátrica do Hospital e Pronto-Socorro da Criança Zona Leste, Dayse Souza, do diretor-presidente da FMT-HVD, Marcus Guerra e do diretor-presidente da FVS, Bernardino Albuquerque.
Protocolo de Milwaukee
Magela relatou que o adolescente chegou ao Hospital da FMT-HVD consciente, sem nenhum sintoma neurológico, mas foi tratado desde o primeiro momento com o Protocolo de Milwaukee, por conta do histórico de agressões de morcego.
O tratamento consiste na sedação do paciente (coma induzido) e uso de medicações – um antiviral e outro medicamento precursor de neurotransmissores, controle da motricidade dos vasos sanguíneos do sistema nervoso central e prevenção de convulsões. No processo, o paciente é mantido em coma induzido, ventilação mecânica e cuidados intensivos de suporte à vida. As medicações foram enviadas pelo Ministério da Saúde à FMT-HVD.
“Ele foi o terceiro membro da mesma família a ser internado. O irmão mais velho, infelizmente, já chegou a Manaus em estado grave e veio a óbito antes de receber o diagnóstico de raiva humana. A irmã de dez anos foi internada na FMT-HVD e chegou a iniciar o Protocolo de Milwaukee, mesmo sem a confirmação de raiva, mas já apresentava quadro muito grave e, lamentavelmente, também não resistiu ao tratamento. Este adolescente foi internado horas após a irmã falecer, apresentando formigamento nas mãos. Nesse mesmo dia, durante a noite, ele teve uma convulsão e precisou ser sedado e encaminhado à UTI”, explicou Magela.
Melhora clínica progressiva
Logo nos primeiros dias de contágio, o adolescente apresentou agravamento do quadro, característica da infecção viral, ficando em estado gravíssimo, mas após o período considerado crítico do vírus passou a responder bem ao tratamento. Antônio Magela explica que a melhora clínica tem sido progressiva.
“Ele foi transferido para o Hospital e Pronto-Socorro da Criança (HPSC) da Zona Leste e está se alimentando por sonda e via oral. Já sai do leito para a poltrona, onde tem feito fisioterapia. Devido à melhora, teve alta da UTI e agora está em enfermaria, tendo acompanhamento de pediatras, fisioterapeutas, nutricionista, neurologista e outros profissionais. Na enfermaria, o paciente tem mais contato com os familiares. O acolhimento familiar tem melhorado bastante o quadro do menino, que fica muito feliz ao ver o pai”, disse.
Acompanhamento
Apesar da erradicação do vírus, o menino deve seguir internado, por tempo indeterminado, para tratamento das complicações causadas pela raiva humana. “O paciente de Recife – primeiro caso de cura da raiva no Brasil – ficou internado por nove meses e tem acompanhamento ambulatorial até hoje. Queremos garantir que este adolescente tenha a melhor recuperação possível. Por isso, continuará sendo acompanhado por uma equipe inter e multidisciplinar”, ressaltou.

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