A MONTANHA DO TEMPO

Adiante, a montanha nebulosa está. Imensas sombras projetadas sobre a terra, como um imponente deus. Rio e vales percorrem sua crosta, fomentando formas de vida. No alto, o céu queima o ar; dá o elemento de equilíbrio que torna a natureza possível. Em meio a tudo isso, a humanidade, que não consegue apreciar as complexidades das formas e se abstém de observá-las, mesmo que por alguns momentos.
Tudo que vem da montanha brotou da terra e a terra retornará. O que não é aproveitado de imediato vira adubo para a perpetuação das espécies. A propagação da vida ocorre em cada fruto, em cada animal sacrificado pelos instintos selvagens. Nós, humanos, esquecemo-nos de nossas origens. Tiramos sem dar nada em troca. Esgotamos recursos, destruímos a montanha. Se essa realidade assim permanecer, poderá ser tarde demais para remediar.
A paisagem outrora intocada da montanha poderia ser pintada, hoje, com a tensão de tintas nebulosas e escuras. Talvez chegue o momento em que à montanha será concedida uma segunda chance. Seu inigualável poder agirá para consertar a depredação. Ela lavará os lugares no quais amamos, sorrimos e choramos. Quando uma nova espécie, mais razoável, brotar do seio da terra, os ecos do passado serão apenas uma lembrança na história.
A montanha não está feliz, pois permaneceu passiva perante nosso vício. Vai sentir nossa falta, apesar de nossa má-educação. Ela não guarda rancor no coração. Não nos culpa. Jamais poderão acusá-la de omissão por atos que nunca foram dela. O que é natural acontecerá naturalmente. O que é humano será esquecido e virará cinzas. Um furacão no tempo engolirá tudo o que foi e tudo o que será.
E então, nossos gritos não valerão de nada. Ecoarão pelas árvores da montanha, mas sem resposta. Ela desejará mover-se em nosso auxílio, sem nada conseguir fazer. Ela é Gaia, a Terra, e não pode mais tolerar nossos atos de beligerância, apesar de suas intenções acolhedoras. No fim, a natureza sempre vence. A natureza destrutiva da humanidade está vencendo inapelavelmente.
Olá! Encaminho texto como contribuição.
Gabriel Bocorny Guidotti – Jornalista e Escritor

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